Mescla de obras, projetos sociais e ações culturais viabiliza a revitalização do centro do Rio de Janeiro

Praça Tiradentes, ícone da revitalização do centro do Rio de Janeiro

Praça Tiradentes, ícone da revitalização do centro do Rio de Janeiro

 

Depois de anos em estado de crise profunda, com a violência gerando o terror e alimentando os noticiários, o Rio de Janeiro vive um momento de efervescência na segunda década do século 21 e o território que melhor representa esse renascimento é o centro da cidade. Uma mescla de obras de engenharia e arquitetura, projetos sociais, ações culturais e de requalificação da matriz de transporte coletivo está levando a uma progressiva revitalização do centro do Rio, que voltou a ser um espaço privilegiado para a produção e contemplação artística, o lazer e a prática da cidadania ativa. Revitalizado, o centro da capital fluminense atrai cada vez mais importantes investimentos e novos negócios.

A série de grandes eventos – Rio+20, Jornada Mundial da Juventude, Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas – e as iniciativas direcionadas para a redução dos índices de violência representam importante estímulo, mas na realidade o resgate do centro do Rio para a população, para o exercício pleno da cidadania, é fruto de ações realizadas nas últimas duas décadas, pelo menos. Ações envolvendo poder público, iniciativa privada e sociedade civil organizada, e resultantes de planos estratégicos pactuados, muito discutidos. Se existem obras polêmicas, são aquelas implantadas de forma vertical, sem a necessária participação de todos os interessados.

A revitalização do centro do Rio indica algumas lições: (I) Uma ação desse porte depende de vontade política e de ação conjunta do poder público, sociedade civil e setor empresarial. (II) São ações de médio e longo prazos, dependendo, portanto, de continuidade, independente de mudanças de orientação nos governos municipais. (III) A revitalização começa pela cultura, pela alegria, pela elevação da autoestima.  

São diversos projetos em curso ou já concluídos. Dois grandes programas, ou conjuntos de projetos, se destacam, servindo como âncoras da transformação do centro do Rio:

1. Novo Rio Antigo e a volta da Lapa boêmia – A revitalização da Lapa, resgatada como bairro boêmio e polo cultural, é derivada do Projeto Corredor Cultural do Rio de Janeiro, iniciativa de 1979 da Prefeitura e compreendendo a recuperação de espaços históricos do centro, como a própria Lapa, praça Tiradentes e cercanias, Saara, Largos da Carioca e São Francisco, entre outros.

Pode-se dizer que a retomada da Lapa pela cidadania começou no ritmo da música, pelo papel desempenhado pela Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sala Cecília Meirelles e outros espaços como a casa de shows Asa Branca. O território entre as ruas Joaquim Silva e Riachuelo e avenida Mem de Sá  tornou-se o epicentro do renascimento cultural do bairro.

Depois a Lapa foi beneficiada pelo Projeto do Polo Novo Rio Antigo, que fortaleceu a região em termos econômicos.  Como consequência, foi criado o Pólo Cultural, Gastronômico, e Histórico do Novo Rio Antigo. Projeto intersetorial e multiinstitucional, com atuação marcante de organizações como a Associação de Comerciantes do Centro do Rio Antigo (ACCRA).

Rua Buenos Aires, um dos eixos da Saara, o território do comércio popular no centro do Rio: revitalização considera novo vigor para a economia

Rua Buenos Aires, um dos eixos da Saara, o território do comércio popular no centro do Rio: revitalização considera novo vigor para a economia

 

2. Porto Maravilha –  Diversas operações urbanas e ações sociais e culturais já estão mudando o perfil desse pedaço especial do Rio. Em março de 2013 foi inaugurado o Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá, o mais novo território artístico-cultural da cidade, instalado no Palacete Dom João VI e em um antigo terminal rodoviário, onde foi montada a Escola do Olhar, voltada para a formação de educadores da rede pública.

No pé do Morro da Providência (onde nasceu uma das primeiras favelas do Rio), foram restaurados os Galpões da Gamboa, espaço cultural de 18 mil metros quadrados reinaugurado recentemente, no início de setembro, com a segunda edição do ArtRua, Festival de Arte Urbana, realizado de forma paralela ao ArtRio, uma  feira internacional de arte que ocupou os armazéns 1, 2, 3 e 4 do Píer Mauá, na Avenida Rodrigues Alves, também na região central-portuária.

Até 2016, quando a operação urbana Porto Maravilha deve estar concluída, a região vai ganhar novos 143.855 m² de áreas de praça e de lazer, atingindo 232.000 m², quase três vezes o espaço ocupado atualmente com estes fins. Um dos prédios que será restaurado na região é o da Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, na Saúde, que é a primeira escola de arte dramática do país, fundada em 1879.

Um antigo armazém da empresa Paranapanema, por sua vez, será restaurado e transformado na Fábrica de Espetáculos, onde será instalado o acervo do Theatro Municipal e onde funcionarão oficinas de profissionalização na área de espetáculos. A Accademia  Teatro Alla Scala de Milão (a famosa casa de espetáculos onde brilhou o brasileiro Antônio Carlos Gomes) dará consultoria para a Fábrica.

Em função das obras realizadas na região do Porto Maravilha, foi redescoberto em 2010 o Cais do Valongo, onde, estima-se, desembarcaram mais de 500 mil escravos africanos e que desde então já se tornou um ícone para a cultura negra. Por sua importância monumental, já foi aberto processo na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco) para tornar o Cais do Valongo patrimônio histórico da humanidade. O Porto Maravilha também tem incidência no bairro da Saúde e áreas históricas como Praça Mauá, Igreja São Francisco da Prainha e Jardim Suspenso do Valongo. Construído pelo ex-prefeito e urbanista Francisco Pereira Passos, no início do século 20, é um jardim com características singulares no Brasil.

O Museu do Amanhã (concebido pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, com obras espalhadas por todo mundo), outro projeto ligado ao Porto Maravilha, é iniciativa conjunta da Prefeitura do Rio de Janeiro e Fundação Roberto Marinho, tendo como Patrocinador Master o Banco Santander e o apoio do Governo do Estado, através da Secretaria do Ambiente, do Governo Federal, pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), e da Secretaria dos Portos. Entre outros parceiros estão o Smithsonian Institute e a California Academy of Sciences, dos EUA; o Parc de La Villette, da França; o Worldwatch Institute e o World Resources Institute; e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A região de abrangência do Porto Maravilha (zona portuária e centro) também terá a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), com seis linhas e 42 paradas e capacidade para transportar 282 mil passageiros por dia. Um toque especial de mobilidade urbana, na cidade que há anos encara a revitalização de sua região central como fundamental para a melhoria da qualidade de vida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: